"Profissionais multilíngues e altamente qualificados", é a primeira característica mencionada do Uruguai para atrair investimentos de empresas estrangeiras de tecnologia para o país, em um relatório Uruguay Smart Services do Uruguai XXI este ano.
Embora isto seja reconhecido por empresas estrangeiras e nacionais no setor de tecnologia, não há pessoas suficientes. E isto é sentido no setor e nas possibilidades de crescimento das empresas.
Apesar disso, a empresa britânica de tecnologia Endava está desembarcando no Uruguai através da compra, no final do ano passado, da empresa americana Velocity Partners, que tem uma presença no país com dois centros de desenvolvimento de software.
Desta forma, a empresa terá presença na América Latina e procurará clientes nos Estados Unidos, além daqueles que já possui na Europa. A Velocity Partners está presente na América Latina com centros também na Argentina, Colômbia e Venezuela.
Chegou ao Uruguai em 2012; o desenvolvimento de software em seus dois escritórios localizados no centro de Montevidéu é exportado para clientes nos Estados Unidos e Canadá. "A Endava tem um modelo de negócios semelhante ao da Velocity Partners. Eles fazem o desenvolvimento para a Europa a partir da Europa Oriental", explicou o gerente nacional da Velocity Partners para o Uruguai e Colômbia, Pedro Minetti.
A mudança de nome de Velocity Partners para Endava deve ocorrer dentro de três a quatro meses.
Atualmente 90 pessoas estão trabalhando no desenvolvimento de software, que, segundo Minetti, será mais para executar as novas estratégias projetadas para a Endava na região.
Quando uma empresa estrangeira de tecnologia se instala no Uruguai ou planeja expandir-se, ela gera uma agitação entre seus concorrentes porque a conseqüência direta é um aumento da demanda de mão-de-obra em um mercado onde a oferta permanece a mesma.
É o que acredita o vice-presidente de engenharia da VeriFone no Uruguai, Rafael Cuenca. "Quando uma empresa está sendo instalada ou tem um novo projeto, eles iniciam os movimentos no mercado. A única maneira que eles têm para montar o equipamento é levar pessoas de outras empresas já estabelecidas", disse Cuenca, em referência direta ao desemprego zero no setor. A VeriFone Uruguai emprega 120 pessoas, incluindo 10% de estrangeiros.
Esta falta de recursos humanos qualificados no país já é considerada "um problema" para a empresa; como conseqüência, ela teve que deslocar projetos específicos para outros países. "Nós nos desenvolvemos na Índia, porque há recursos disponíveis lá, e se o fizéssemos aqui (Uruguai), levaria meses para montar a equipe. É um problema hoje", admitiu Cuenca.
Atraindo talentos
Levando em conta este problema de escassez de mão-de-obra, há um ano e meio, o Uruguai XXI - juntamente com o Ministério das Relações Exteriores e a Direção Nacional de Migração - concordou em conceder residência temporária e vistos para os trabalhadores estrangeiros contratados por empresas no Uruguai dentro de oito dias.
Segundo a coordenadora do setor de TIC do Programa Global de Serviços do Uruguai XXI, Isabella Antonaccio, esta solução foi amplamente utilizada pela empresa indiana Tata Consultancy Services (TCS). "Mais de 100 pessoas vieram da Índia, além de pessoas de Cuba e Venezuela, com um bom nível técnico", explicou Antonaccio. A empresa deve solicitar residência e um visto, explicando que já contratou a pessoa, o cargo que ela ocupará e o salário. A residência é concedida por dois anos e pode ser renovada por mais dois.
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"O Uruguai é competitivo para empresas que oferecem serviços de alto valor agregado para se estabelecerem no país" Isabella Antonaccio, Coordenadora Setorial de TIC do Uruguai XXI
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A empresa de origem indiana se estabeleceu no Uruguai em 2002, no que foi a primeira localização da empresa na América Latina.
Hoje, recruta candidatos de outros países latino-americanos para trabalhar no Uruguai. Além disso, a TCS tem funcionários de nacionalidade indiana, que são transferidos do escritório central. Seu objetivo é compartilhar seus conhecimentos com o pessoal local e colaborar com o treinamento no Uruguai. Para o centro de entrega principal da TCS, Santiago Priario, as políticas de migração do Uruguai contribuem para receber profissionais altamente qualificados. "Não é novidade que o Uruguai sempre teve restrições em termos de disponibilidade de talentos em larga escala, mas as políticas de imigração têm se adaptado à imigração qualificada que o país está recebendo nos últimos anos", resumiu ele.
Uma das estratégias da TCS é treinar os funcionários juniores nas tecnologias mais requisitadas, pois eles podem construir suas carreiras na empresa e aprender enquanto trabalham.
Para o presidente da Câmara Uruguaia de Tecnologia da Informação (Cuti), Leonardo Loureiro, esta escassez de RH pode se tornar uma "oportunidade". "Para uma indústria como a nossa, com foco global, o multiculturalismo é muito importante, tanto para o desenvolvimento de projetos quanto para a criatividade. Portanto, na escassez, muitas vezes há excelentes profissionais uruguaios que podem ser complementados com os estrangeiros que vêm trabalhar no país", refletiu ele. Ele acrescentou que se o Uruguai quer ser uma referência para a instalação de centros de desenvolvimento de software, deve "encorajar mais estrangeiros a virem trabalhar".
Para a empresa NetSuite - adquirida pela Oracle em 2016-, também foi um problema obter recursos de qualidade quando ela começou a operar no Uruguai, em 2012, após a compra de duas empresas locais, uma vez que ainda não havia desenvolvimento da marca e da infra-estrutura. Segundo o gerente geral da NetSuite Uruguai, Diego Terra, essa situação foi resolvida, embora para alguns cargos-chave tenha sido contratado pessoal em outros países. "Hoje temos bons benefícios e possibilidades de desenvolvimento para todos, o que é importante quando se trata de atrair talentos. Os funcionários que recrutamos eram da Argentina, e havia candidatos de Cuba, Colômbia, Inglaterra e Venezuela", disse ele.
Faça parte de
Os benefícios e a cultura organizacional são fundamentais para atrair talentos na indústria das TIC, segundo o gerente de país do Mercado Libre Uruguai, Rafael Hermida. Embora o salário seja importante ao escolher entre uma empresa e outra - de acordo com o último Conselho Salarial, um técnico júnior recebe US$ 25.528 nominais por 44 horas por semana - isto não é a única coisa que importa.
"Apesar da concorrência extremamente alta por talentos no setor, acreditamos que a proposta de valor do empregado é o que é necessário hoje", disse Hermida.
No caso da empresa argentina Globant, o primeiro centro de desenvolvimento no exterior foi no Uruguai, escolhido por sua proximidade física e cultural e pelo "pool de talentos" presente no mercado, segundo o gerente de pessoal, Bernardo Manzella. "É um desafio ter as melhores pessoas trabalhando na Globant", disse ele.
Os "globers" (como são chamados os funcionários da empresa) são os talentos que a empresa quer reter na empresa. Como este público é milenar, os escritórios têm espaços para relaxar, procurando flexibilidade no espaço. "No Uruguai existem excelentes universidades e profissionais altamente capacitados; é importante ter o melhor", acrescentou ele.
Em maio de 2004, a Sabre criou seu centro global de atendimento ao cliente em Montevidéu, e está atualmente desenvolvendo soluções técnicas para os clientes. Segundo o Gerente de Projetos no Uruguai, Gonzalo Sainz, uma das principais razões para a chegada foi a mão de obra. "O alto grau de multilinguismo disponível, a diversidade da população e a cultura orientada ao serviço fazem com que o mercado se destaque", disse ele.
Quando o Sabre montou a loja pela primeira vez, o fez com uma equipe de 120 pessoas, trabalhando em três tipos de funções. Na época, o plano era expandir a equipe para 300 pessoas nas mesmas três funções. No entanto, a empresa decidiu crescer para mais de 500 no Uruguai, bem como incorporar novas funções.
Para as empresas de tecnologia presentes no país, o treinamento interno dos funcionários é importante para preencher algumas vagas.
Foco nas empresas
Apesar da falta de recursos humanos, tanto o Uruguai XXI como a Cuti entendem que foi gerado um ambiente favorável para a instalação de centros de desenvolvimento de software no Uruguai.
Antonaccio do Uruguai XXI explicou que a estabilidade macroeconômica e política, e a infra-estrutura tecnológica são dois dos aspectos mais promovidos para a instalação de empresas estrangeiras. "O Uruguai foi um dos primeiros países da região a conseguir a internacionalização do software. Ele gerou um ecossistema que é usado para exportar. Os profissionais têm essa cultura de trabalhar no exterior", destacou ele.
Por outro lado, os incentivos à indústria de software, com a isenção do Imposto de Renda sobre Atividades Econômicas (IRAE) para desenvolvimentos de software destinados ao exterior, é outro benefício para a instalação de centros de desenvolvimento.
Entretanto, Loureiro de Cuti enfatizou que o que as empresas mais valorizam é o talento do povo uruguaio. "Primeiro por sua qualidade técnica, mas também por sua versatilidade e adaptabilidade a situações complexas".
Fonte: O Observador
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